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Diversificação

Quanto investir no exterior: o que diz a pesquisa

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O estudo que simulou a vida de investidores com dados de 39 países, e o que ele não diz para quem mora no Brasil.

Quem investe costuma deixar quase todo o dinheiro no próprio país. Os economistas chamam isso de viés doméstico, ou home bias. Um estudo recente testou outro caminho: uma carteira só de ações, com cerca de um terço no país de quem investe e dois terços fora, mantida a vida inteira.

Este artigo resume o que o estudo testou, o que encontrou e os limites dele. Ele não diz quanto você deve ter fora do país: as metas são escolhas suas.

O viés doméstico

Em 1991, uma pesquisa mostrou que os investidores dos EUA tinham 94% das suas ações no próprio país, os do Japão mais de 98% e os do Reino Unido 82%. Para os autores, isso parecia vir da escolha dos investidores, e não de regras que os impedissem de investir fora (French e Poterba, 1991).

Uma explicação é a familiaridade. Nos EUA, os acionistas de cada companhia telefônica regional tendiam a morar na região que ela atendia. O autor concluiu que as pessoas investem no que conhecem, muitas vezes deixando de lado os princípios da diversificação (Huberman, 2001).

No Brasil, um estudo da FGV encontrou que, dos bens declarados no Imposto de Renda referentes a 2024, 6,3% estavam no exterior. Em imóveis, aplicações financeiras e fundos, a parte de fora era de 2,2% (Yoshinaga e outros, 2026).

O que o estudo testou

O estudo se chama Beyond the Status Quo, ou "além do status quo", e é de Aizhan Anarkulova, da Universidade Emory, Scott Cederburg, da Universidade do Arizona, e Michael O'Doherty, da Universidade do Missouri. A versão mais recente é de agosto de 2026, e ele ainda não saiu numa revista científica: ainda não passou pela revisão de outros pesquisadores (Anarkulova, Cederburg e O'Doherty, 2026).

Os autores usaram os retornos de ações e de renda fixa de 39 países desenvolvidos, de 1890 a 2023. Cada país só entra na amostra depois de se tornar desenvolvido. Com esses dados, simularam 1 milhão de vidas de um casal americano que começa a trabalhar aos 25 anos, se aposenta aos 65, recebe a previdência pública dos EUA e não pode pegar dinheiro emprestado para investir. Para preservar a sequência de anos bons e ruins, cada simulação junta trechos seguidos da história, de 10 anos em média.

Eles compararam cinco formas de investir:

  • 100% em títulos de curto prazo.
  • 100% em ações do próprio país.
  • 60% em ações e 40% em títulos.
  • Um fundo de data-alvo, que reduz as ações conforme a idade avança.
  • A melhor combinação que o modelo encontrou.

O que ele encontrou

A melhor carteira ficou perto de um terço em ações do próprio país e dois terços em ações de outros países, em qualquer idade, sem renda fixa. Com pesos fixos, a melhor divisão foi de 34% e 66%.

Comparada ao fundo de data-alvo, ela levou a estes resultados, em médias das simulações e em dólares de 2022:

ResultadoMelhor carteiraFundo de data-alvo
Parte da renda poupada8,1%10,1%
Patrimônio ao se aposentarUS$ 0,99 milhãoUS$ 0,86 milhão
Renda na aposentadoria, em relação à de antes1,59 vez1,14 vez
Herança deixadaUS$ 0,76 milhãoUS$ 0,42 milhão

Ou seja, poupando menos, o casal chegou à aposentadoria com mais. Pela medida de bem-estar do estudo, ficar no fundo de data-alvo equivale a pagar uma taxa de 1,90% ao ano sobre a melhor carteira.

O preço: quedas maiores

Uma carteira só de ações cai mais. Na média das simulações, a maior queda descontada a inflação durante a vida ativa foi de 55% na melhor carteira e de 52% no fundo de data-alvo. Na aposentadoria, foi de 48% e de 40%.

Nos piores casos, a conta se inverte. Em 5% dos cenários, a maior queda foi de 77% ou mais na melhor carteira e de 81% ou mais no fundo durante a vida ativa. Na aposentadoria, foi de 74% ou mais e de 89% ou mais. O fundo sofreu mais nesses casos porque a inflação alta corroeu o valor dos títulos.

Os autores reconhecem o risco de comportamento: quedas grandes doem, e muita gente tende a abandonar a estratégia quando elas acontecem. O resultado do estudo depende de manter as ações nos anos bons e nos ruins.

Por que ações de fora, e não renda fixa

Nos dados do estudo, os títulos de longo prazo renderam 0,95% ao ano acima da inflação, e as ações de outros países, 7,03%. Em prazos de 30 anos, a variância por ano dos títulos, uma medida de risco, fica 2,39 vezes a de um ano só, e a das ações de fora cai para 0,75 vez. E o retorno real dos títulos cai quando a inflação sobe, com correlação de −0,78, enquanto o das ações de fora quase não se liga a ela, com −0,02.

Diversificar entre países também reduz o risco de um país só ter décadas ruins. Num estudo anterior dos mesmos autores, publicado no Journal of Financial Economics, com 39 países desenvolvidos, a chance de quem tem só ações do próprio país perder para a inflação em 30 anos foi de 12%. Com os dados dos EUA sozinhos, ela seria de 1,2%. No Japão, de 1990 a 2019, as ações acumularam perda de 21% descontada a inflação (Anarkulova, Cederburg e O'Doherty, 2022).

Em outro trabalho deles, ainda sem publicação em revista, em 30 anos as ações do próprio país perderam para a inflação em 13% dos casos, os títulos de longo prazo em 27% e os de curto prazo em 37%. As ações de outros países perderam em 4%, porque o câmbio compensou parte da inflação local (Anarkulova, Cederburg e O'Doherty, 2023).

O que os críticos dizem

O estudo recebeu críticas fortes. Cliff Asness, da gestora AQR, lembrou que nem todo mundo pode ter 100% em ações, porque alguém precisa ficar com os títulos, e disse que o período dos dados provavelmente favorece as ações. Para ele, quem quer mais retorno pode pegar emprestado, com moderação, para investir numa carteira mais equilibrada (Asness, 2024). Os autores responderam que a maioria das pessoas que poupa para a aposentadoria não consegue investir com dinheiro emprestado (Fortune, 2024). A versão de 2026 testou esse caso, e, mesmo podendo pegar emprestado a um custo moderado, a carteira continuou quase toda em ações.

Larry Swedroe, num texto para a Morningstar, lembrou que as perdas pesam mais para as pessoas do que os ganhos e questionou se a maioria aguentaria as quedas maiores sem desistir (Swedroe, 2024).

Essas críticas foram feitas sobre a primeira versão, de 2023, que propunha metade no próprio país e metade fora. Desde então, o estudo mudou de método e de números.

O que muda para quem mora no Brasil

O Brasil não está na amostra, que só tem países desenvolvidos. E o casal do modelo é americano, com a previdência pública dos EUA.

O "um terço no próprio país" também pesa diferente para cada um. Os EUA são 64,63% do índice mundial de ações da MSCI (MSCI ACWI), então, para um americano, um terço em casa é menos do que o peso do país no mundo. O Brasil é 3,9% do índice de países emergentes da MSCI (MSCI Emerging Markets). Pelo valor de mercado que as fichas dos dois índices mostram, isso dá perto de 0,4% do índice mundial.

O estudo não calcula uma divisão para o Brasil, e o próprio resultado muda com os dados: sem os EUA na amostra, a melhor divisão foi de 49% no próprio país e 51% fora. Por isso, ele não diz que um brasileiro deveria ter um terço no Brasil.

Investir fora também passa pelo câmbio. Nos dados dos autores, as variações do câmbio compensaram parte da inflação local, mas isso não foi testado para o Brasil. O modelo também deixa de fora custos e impostos. Mandar dinheiro para fora tem custos de câmbio, e os rendimentos de aplicações financeiras no exterior pagam 15% de Imposto de Renda, apurados uma vez por ano (Lei 14.754/2023).

Quanto ter fora do país é uma escolha sua. O que o estudo oferece são números sobre um caminho pouco usado, com os riscos dele.

Fontes

Quando o artigo da revista é pago, o link leva a uma versão gratuita dos autores, quando ela existe, ou à página com o resumo.

O Aportly faz essa conta em cotas inteiras, sobre as metas que você definiu.

O app está em desenvolvimento. Avisamos por e-mail quando ele abrir, e você pode sair da lista quando quiser. Ao entrar, você aceita a política de privacidade.

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