Voltar ao blog
Rebalanceamento

Como rebalancear a carteira sem vender

Publicado em

A conta que mostra para onde vai o dinheiro novo, com números de exemplo.

Quando uma parte da carteira cresce mais que o resto, os pesos saem do que você planejou. Uma forma de voltar ao plano é vender o que passou da meta e comprar o que ficou para trás. Outra é não vender nada e direcionar o dinheiro novo para o que está mais longe da meta.

Este artigo mostra o que as pesquisas dizem sobre rebalancear e explica a segunda forma. Ele não diz o que comprar: as metas e os ativos são escolhas suas.

Por que rebalancear

Sem rebalanceamento, o risco da carteira muda sozinho. A parte que mais cresce costuma ser a de mais risco, e ela vai ocupando espaço. Num estudo da Vanguard com dados dos EUA de 1926 a 2009, uma carteira que começou com 60% em ações e 40% em renda fixa e nunca foi rebalanceada ficou, na média do período, com mais de 84% em ações. O desvio padrão dela foi de 14,4% ao ano, contra 12,1% na mesma carteira rebalanceada todo mês (Jaconetti, Kinniry e Zilbering, 2011).

A carteira sem rebalanceamento também rendeu mais, 9,1% ao ano contra 8,5%, porque ficou com mais ações e mais risco. Por isso, o objetivo de rebalancear é manter o risco que você escolheu, e não ganhar mais. A própria Vanguard diz que o propósito do rebalanceamento é controlar o risco, e não maximizar o retorno (Vanguard).

A teoria também mostra quando ele ajuda e quando atrapalha. Manter os pesos fixos funciona melhor em mercados que sobem e descem sem uma tendência clara, e pior em tendências longas, porque vende o que continua subindo e compra o que continua caindo (Perold e Sharpe, 1988). Os dados mostram os dois lados:

  • Na crise de 2007 a 2009, rebalancear todo mês uma carteira de 60% em ações e 40% em títulos deixou a maior queda 5 pontos percentuais pior do que não mexer (Man Institute, 2020).
  • Na queda de fevereiro e março de 2020, foi o contrário. A carteira que nunca foi rebalanceada desde 1994 tinha chegado perto de 80% em ações e caiu 27,8%, enquanto as rebalanceadas caíram entre 20,67% e 21,34% (Arnott, 2020).

Alguns estudos descrevem um ganho extra de manter os pesos fixos (Booth e Fama, 1992; Willenbrock, 2011). Uma revisão mostra que esse ganho costuma ser exagerado, porque muitas vezes é confundido com o da diversificação, que existe mesmo sem rebalancear (Cuthbertson e outros, 2016).

Por que usar o aporte

Vender tem custo: corretagem, spread e, quando há lucro, imposto. No Brasil, em geral, o lucro na venda de ações na bolsa paga Imposto de Renda (Receita Federal).

O mesmo estudo da Vanguard testou rebalancear sem vender nada, só levando os dividendos e os juros para a parte abaixo da meta. Segundo os autores, isso trouxe a maior parte do controle de risco das estratégias com venda, a um custo muito menor. Como dividendos e juros altos podem não se repetir, eles apontam os aportes e os resgates como uma forma de rebalancear que não depende deles (Jaconetti, Kinniry e Zilbering, 2011).

A Morningstar, que mede a diferença entre o retorno dos fundos e o que os investidores ganharam de fato, também sugere, em alguns casos, automatizar tarefas como o rebalanceamento para diminuir essa diferença (Ptak, 2026).

A conta em três passos

  1. Some o patrimônio atual com o aporte.
  2. Multiplique esse total pelo peso ideal de cada parte da carteira. Esse é o valor que ela deveria ter.
  3. Subtraia o valor atual. O resultado é a falta para a meta.

O que tem falta positiva recebe o aporte. O que tem falta negativa já passou da meta e fica esperando a carteira crescer.

Um exemplo

Uma carteira de R$ 10.000 tem duas partes, A e B, com R$ 5.000 cada. As metas são 60% e 40%, e o aporte do mês é de R$ 1.000. O total passa a ser R$ 11.000.

ParteTem hojeMetaDeveria terFalta
AR$ 5.00060%R$ 6.600R$ 1.600
BR$ 5.00040%R$ 4.400-R$ 600

Só a parte A tem falta positiva, então o aporte inteiro vai para ela. Ninguém vendeu nada, e a carteira chegou mais perto do plano.

Parte A50,0% para 54,5%, meta 60%
Parte B50,0% para 45,5%, meta 40%
o que você já temeste aportemeta

Quanto tempo leva

Com os preços parados, esta carteira volta à meta no terceiro aporte de R$ 1.000. Quanto menor o aporte perto da carteira, mais meses a volta leva. Essa é a troca de não vender.

Na prática, os preços mudam todo mês, e ações e ETFs na bolsa só são comprados em unidades inteiras. Por isso a conta é refeita a cada aporte, e costuma sobrar um pequeno troco.

Com que frequência

Para quem rebalanceia vendendo, os estudos mostram que a frequência muda pouco o resultado, e que o custo pesa mais. No estudo da Vanguard, rebalancear todo mês, a qualquer desvio, exigiu 1.008 rebalanceamentos em 84 anos. Olhar uma vez por ano e só agir com desvio de 10 pontos percentuais exigiu 15, com risco e retorno parecidos. Os autores concluíram que, em carteiras de fundos de ações e de renda fixa bem diversificadas, olhar a carteira uma ou duas vezes por ano e rebalancear quando um peso se afasta 5 pontos percentuais da meta tende a equilibrar de forma razoável risco e custo. Carteiras mais concentradas podem pedir ajustes mais frequentes (Jaconetti, Kinniry e Zilbering, 2011).

Outros estudos chegam a regras diferentes. Um deles encontrou ganhos maiores com margens de 20% do peso de cada meta, que numa meta de 40% vão de 32% a 48%, conferidas a cada poucos pregões, mas, no mercado em alta de 1994 a 1998, nenhuma regra ganhou de não mexer (Daryanani, 2008).

Com o aporte, a conta é refeita todo mês sem custo extra, porque o dinheiro novo precisa ser investido de qualquer jeito.

Fontes

Quando o artigo da revista é pago, o link leva a uma versão gratuita dos autores, quando ela existe, ou à página com o resumo.

O Aportly faz essa conta em cotas inteiras, sobre as metas que você definiu.

O app está em desenvolvimento. Avisamos por e-mail quando ele abrir, e você pode sair da lista quando quiser. Ao entrar, você aceita a política de privacidade.

Continue lendo